A ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), realizada na semana passada e que decidiu pela manutenção da taxa Selic em 15% anuais, veio no mesmo tom mais duro do comunicado do colegiado — como esperado — e reforçou as projeções de um alívio no juros só deve vir em 2026. Embora a reunião de janeiro ainda seja a data de início mais provável para a flexibilização, os economistas dizem que o BC também tem motivos para esperar um pouco mais.
O Copom também ressalta que a política fiscal segue sendo um fator central de risco para a inflação, tanto no curto prazo quanto de forma estrutural
Para Caio Megale, economista-chefe da XP, ao reforçar o tom “hawkish” do comunicado pós-reunião, repetindo a orientação de manter a taxa Selic no nível atual por “período bastante prolongado”, o Copom buscou evitar qualquer discussão de mercado sobre cortes de juros no curto prazo.
“Em nossa visão, a ata sugere que um ciclo de corte de juros é bastante improvável neste ano. Acreditamos que o cenário de melhora inflacionária deve se consolidar à frente, permitindo uma política monetária menos restritiva no ano que vem”, comentou.
A XP continua a projetar um ciclo gradual de corte de juros a partir de janeiro, com a Selic atingindo 12,00% após seis cortes consecutivos de 0,50 p.p.. Mas Megale alerta que um início mais tardio de cortes — em março ou depois — parece mais provável do que um mais cedo, ou seja, em dezembro.
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Na opinião de Rafaela Vitoria, economista-chefe do Inter, o BC reconheceu na ata que as projeções de inflação e expectativas mais longas ainda desancoradas impedem que os fatores positivos citados na ata possam provocar uma mudança de postura mais “hawkish”. “Essa postura é reforçada pelo comentário que o Copom não hesitaria em subir ainda mais os juros caso necessário.”
Ela concorda que aa interpretação é que há pouco tempo para uma mudança dessa postura até dezembro, o que justifica o adiamento das expectativas de início dos cortes, inclusive pela equipe do Inter. “Teria espaço para as taxas longas caírem mais, mas como o próprio Copom comenta, o risco fiscal ainda impede uma queda maior do prêmio de risco embutido nos juros hoje.”
Já na avaliação do Bradesco, apesar do reconhecimento e maior convicção do cenário de atividade mais moderada, o Copom se mantém preocupado com a desancoragem de expectativas de inflação, indicando que uma melhora nesses índices será
um processo importante para o início do ciclo de cortes.
“Nosso cenário considera que a desaceleração econômica e a moderação da inflação deverá criar espaço para início do ciclo de corte de juros a partir do começo do ano que vem. Projetamos Selic em 11,75% ao final de 2026”, escreveu o banco em sua análise.
O Itaú, por sua vez, comentou que a a ata trouxe várias atualizações, com tom geral positivo, na avaliação do cenário e do processo de desinflação. “Os membros do Comitê destacam a valorização do real e demonstram confiança de que a economia está desacelerando de forma consistente com desinflação adicional. Além disso, o Copom expressa confiança de que as expectativas de inflação estão se movendo na direção correta”, listou o banco em sua avaliação.
Segundo o Itaí, em termos líquidos, acreditamos que o documento pende para o lado mais brando, mas não o suficiente para que o banco mude sua projeção de que o ciclo de afrouxamento começará apenas em janeiro de 2026.
Entre os vários fatores citados na ata do Copom, Ariane Benedito, economista-chefe do PicPay, citou a discussão sobre o câmbio. Ela afirmou que o Comitê registrou a recente valorização do real, explicada tanto pelo diferencial de juros doméstico quanto pela depreciação do dólar frente a outras moedas.
“Ainda assim, a ata reforçou a necessidade de monitorar atentamente os efeitos dessa movimentação sobre a inflação, sobretudo por meio do ‘pass-through’. A mensagem é clara: mesmo em ambiente de apreciação, o risco cambial não pode ser descartado, especialmente diante de volatilidade externa, tarifas comerciais e incertezas fiscais domésticas”, afirmou.
Ariane foi outra especialistas a dizer que a interpretação da ata aponta para um tom “hawkish”, sustentado por projeções ainda acima da meta, expectativas desancoradas e riscos relevantes no balanço inflacionário.
“Para as próximas reuniões, o cenário base é de manutenção da Selic em 15% a.a. por tempo prolongado. No entanto, o Comitê deixou explícito que poderá retomar altas caso os vetores de risco se intensifiquem, em especial se houver pressões vindas do câmbio, da política fiscal ou da inflação de serviços.”
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