Para um mercado que dizia ter “precificado” a eleição presidencial, a Bolsa e o dólar têm vivido um período de volatilidade acima da média. Os movimentos de forte volatilidade refletem o incômodo dos investidores com as sinalizações de Lula, eleito presidente por uma diferença apertada de votos, e sua equipe de transição sobre a condução da economia nos próximos quatro anos, além das incertezas sobre os nomes para os ministérios.
Até o pregão de ontem (17), o Ibovespa acumulava uma queda de mais de 5% em novembro, mês que começou com a Bolsa emplacando uma sequência de altas, com o índice indo de 116 mil para abaixo dos 110 mil pontos. O dólar, por sua vez, avança 4,5% no mesmo período. Na véspera, após ter chegado a R$ 5,53, a divisa americana amenizou e fechou a R$ 5,40, mas ainda nas máximas desde julho. Os percentuais só não foram maiores porque os investidores repercutiram de forma positiva a saída do ex-ministro Guido Mantega da equipe de transição, alegando “tumulto dos adversários”.
Segundo economistas, Mantega “remete à política econômica que naufragou com a ex-presidente Dilma Rousseff”. Mas a aversão ao risco está longe de cessar, já que o nome mais forte para substituir Paulo Guedes na Economia parece não agradar nem um pouco os agentes do mercado: Fernando Haddad, que concorreu ao governo de São Paulo este ano e já foi ministro de Lula .
Carla Argenta, economista-chefe da CM Capital, acredita que dificilmente o titular da pasta será um economista renomado. Segundo ela, a indicação tende a ser política para facilitar o trâmite do Executivo com o Congresso.
“Não considero ruim que o ministro seja um nome político, desde que os cargos de secretários sejam preenchidos por técnicos, que tenham condição de desenhar uma política fiscal”, afirma Argenta.
A economista lembra que a política fiscal do governo Lula só deverá ter efeito a partir de 2024, já que, no próximo ano, ela estará sendo desenhada. Portanto, segundo ela, o mercado está se comportando de forma “exacerbada” diante de perspectivas de curto prazo, ou seja, refletindo incertezas e gestos que surpreenderam negativamente.
É o caso da PEC da Transição, que propõe retirar R$ 175 bilhões do teto de gastos de forma permanente para financiar programas sociais.
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“É um cenário grave. Do ponto de vista do equilíbrio fiscal, a PEC traz uma sinalização totalmente oposta, de irresponsabilidade”, afirma Andrea Damico, sócia e economista-chefe da Armor Capital.
“Sempre foi sabido que o governo Lula iria colocar ‘o pobre dentro do orçamento’ como ele sempre disse e essa proposta foi a vencedora do pleito em outubro, mas a comunicação deste plano tem se tornado traumática além da conta”, escreveu André Perfeito, economista-chefe da Necton.
Segundo ele, por um lado é positivo que o governo de transição assuma manutenção do teto. “Contudo, sem ter deixado claro outras peças do tabuleiro, a impressão que se dá é que vão construir na lage uma piscina maior que as colunas do edifício aguentam”, afirma.
Para Marco Noernberg, responsável pela área de renda variável da Manchester Investimentos, a transição não tem sido vista como positiva pois toca nos principais indicadores econômicos. Afinal, aumento de gastos públicos afeta o endividamento do país, podendo deixar a inflação elevada e a Selic por mais tempo no atual patamar.
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“Se o mercado começar a ver que as novas medidas vão convergir para juros mais baixos, inflação mais controlada e déficit fiscal menor, esse movimento [de baixa da Bolsa] tende a acabar”, afirma Noernberg.
Segundo ele, por mais que os investidores tivessem precificado dificuldades na parte fiscal com Lula, a expectativa era de que o presidente eleito fosse mais “market friendly“. “Isso não tem acontecido. O discurso tem sido mais social do que econômico”, afirmou.
“Não adianta ficar pensando só em responsabilidade fiscal, porque a gente tem que começar a pensar em responsabilidade social”, disse Lula durante a COP-27, no Egito. A afirmação que pesou negativamente nos negócios de ontem foi motivo de uma carta escrita por Arminio Fraga, Edmar Bacha e Pedro Malan, economistas que apoiaram Lula.
Mesmo com a Bolsa “barata” em termos históricos, Noernberg acredita que isso não será exatamente um limitador para novas quedas. “O movimento de queda vai continuar até o mercado se achar confortável ou achar que a Bolsa está muito barata mesmo”, disse ele. “Comparando com outros pares, ainda estamos com entrada de fluxo estrangeiro, o que ajuda a cair menos do que cairia”.
Nesse aspecto, André Perfeito, da Necton, avalia a situação pela ótica da metade cheia do copo. “O mercado agora está mais ajustado e se torna extremamente atraente para investidores”, escreveu.
O dólar, por sua vez, ganha tração em um período marcado pela remessa de moeda estrangeira para o exterior. É no final do ano que subsidiárias de empresas gringas no Brasil distribuem lucros para suas matrizes.
No entanto, Noerberg acredita que o real pode continuar se amparando por um cenário macroeconômico superior ao de outros mercados, com crescimento de PIB na ordem de 3% e inflação abaixo de 6%.
“O fluxo de investimento em emergentes não tem outras diretrizes fora o Brasil, o que nos favorece. Não vejo o dólar explodindo, mesmo em situação de maior stress”, afirma.
Já Renan Mazzo, head de câmbio da SVN Investimentos, acredita que, mesmo com a Bolsa barata, a preocupação fiscal não deve segurar investimentos do exterior no Brasil. Além disso, paralelo à turbulência externa, há também as preocupações com inflação e alta de juros nos Estados Unidos.
“Se a inflação nos EUA continuar pesando, com subindo lá fora, o dólar tende a continuar se valorizando, sim. Mas se o Lula for menos radical em questões fiscais, o dólar pode perder força frente ao real”, afirmou.
Segundo o diretor da Wagner Investimentos, José Faria Jr., é importante que o patamar de R$ 5,50 para o dólar seja respeitado. “Acima de R$ 5,50 deixaria a moeda muito vulnerável, com chance de subir em direção a R$ 5,70 e R$ 5,80”, apontou em relatório da última quinta-feira. Nesta sexta, o dólar registrava queda de cerca de 0,7%, a R$ 5,36.
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