A reação do mercado brasileiro a princípio positiva após o “Dia da Libertação” de Donald Trump com anúncio de tarifas recíprocas pode levar a uma visão de que o impacto será positivo para a economia brasileira, ainda que de forma indireta. Contudo, as incertezas ainda devem dar a tônica e abalar as perspectivas de crescimento global, o que invariavelmente afeta as perspectivas de crescimento econômico para o país.
A tarifa-base de 10% estabelecida para o Brasil (a mínima estabelecida entre os mais diversos países) foi vista como positiva em termos relativos para o país, ainda que a medida no geral seja vista como negativa em termos absolutos.
Em relatório, a equipe de estratégia da XP aponta a visão de que as tarifas impostas ao Brasil foram mais brandas do que as direcionadas a outros países. “No entanto, permanecem riscos relevantes, como a tarifa base de 10% sobre todas as importações, que pode afetar importantes produtos exportados para os EUA”, avaliam os estrategistas da XP.
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Além disso, pode haver um foco maior da China em investimentos estratégicos em infraestrutura no Brasil e na América Latina. A China ampliou, desde o ano 2000, significativamente seu investimento estrangeiro direto na região, com um CAGR (taxa de crescimento anual composta) de 16,3% em 20 anos, somando US$ 73,3 bilhões em investimentos em infraestrutura no Brasil entre 2007 e 2023, distribuídos em 264 projetos, segundo o Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC).
Já as tarifas sobre o Brasil menos severas em comparação com o restante do mundo podem posicionar o país como menos exposto ao risco tarifário, favorecendo a continuidade da rotação de fluxos de capital para fora dos EUA.
Para Luis Stuhlberger, presidente e chefe de investimentos da prestigiada gestora Verde Asset, o Brasil foi “muito beneficiado” pelos impactos do tarifaço. “O Brasil saiu muito beneficiado dessa história, porque como a gente tem uma balança comercial equilibrada para os EUA, essa conta, essa métrica, dá zero. Zero de tarifa. Quem dá zero tem o mínimo de 10%”, afirmou o executivo em evento de lançamento de fundo de previdência privada multimercado Verde Icatu. “Resta saber se o Brasil vai saber aproveitar essa oportunidade”, acrescentou.
Lucas Farina, analista de economia da Genial Investimentos, também aponta como positivo o Brasil, fortuitamente, ter ficado no grupo de países que foi impactado pela alíquota mínima de 10%, junto com outros fortes aliados dos EUA como o Reino Unido, Cingapura, Chile, Austrália e Nova Zelândia.
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“A despeito dessa surpresa positiva para o caso brasileiro, as maiores vantagens podem ser colhidas nos efeitos secundários, com a boa situação relativa do Brasil podendo se refletir em ganho de market share das exportações do país no mercado global. Adicionalmente, o timing é benéfico dado o mau momento vivido pela balança comercial brasileira, que vem pesando sobre o saldo em transações correntes”, avalia Farina.
Pontos negativos
Por outro lado, dentre os pontos negativos, a tarifa base proposta de 10% sobre todas as importações pode impactar os principais produtos exportados pelo Brasil aos EUA. Dentre eles, petróleo bruto, aço semiacabado e café.
Enquanto isso, o fortalecimento das relações estratégicas entre Brasil e China pode gerar barreiras comerciais. Os estrategistas ressaltam o histórico dos EUA de adoção de medidas comerciais contra o Brasil, como disputas anteriores envolvendo tarifas sobre o aço e cotas para o etanol. Uma maior aproximação entre Brasil e China pode afetar os fluxos comerciais e de investimento direto.
A XP também ressalta que uma guerra comercial prolongada pode levar a uma desaceleração mais aguda nas economias dos EUA e global.
É nesse sentido que residem algumas das principais preocupações pós-tarifaço do Trump. Para a equipe econômica do Bradesco, as tarifas recíprocas no geral maiores do que o esperado terão impactos relevantes para a economia norte-americana, mesmo sem retaliação dos outros países.
O banco estima alguns impactos iniciais, ainda com incerteza sobre alguns detalhes do anúncio e sem conhecer as medidas que os outros países podem adotar. A elevação da tarifa média para 24%, reduziria o PIB dos EUA de 2% para até 0% em 2025. Ao mesmo tempo, o impacto sobre a inflação é da ordem de 1 ponto percentual (p.p.), levando a estimativa para o núcleo do PCE (medida de inflação ao consumidor preferida do Fed) de 2,5% para 3,6%.
Em um exercício também inicial, o PIB global pode ceder de 3,1% para 2,5%. “Essas contas são muito dependentes das reações dos outros países, como eventuais novos acordos comerciais e retaliações, bem como dependem das elasticidade da demanda, efeito substituição e compressão de margens corporativas”, avalia o banco.
Assim, aponta, o efeito de um menor PIB global poderia retirar 0,5 p.p. do PIB brasileiro, considerando a relação histórica entre o crescimento global e o doméstico. “Mas o efeito final dependerá do viés de alta que vínhamos observando no primeiro trimestre, medidas de estímulos do governo que vinham sendo adotadas e condições financeiras globais”, avaliam os economistas, não mudando por enquanto as suas projeções.
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Já os impactos sobre a inflação brasileira são bastante complexos de estimar. Na visão dos economistas, o PIB menor poderia retirar 0,15 p.p. da inflação (IPCA), em um exercício parcial, que não considera eventuais impactos no câmbio e nem nos preços globais dos produtos importados.
Com as restrições de comércio com os EUA, é provável que haja uma redução dos preços de bens importados por nós, especialmente de produtos vindos da Ásia, mas valem as mesmas ressalvas feitas às simulações para o crescimento.
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