O cenário de desemprego baixo no Brasil não deve ser revertido no curto prazo e as contínuas transferências fiscais ganham em 2026 o reforço da reforma do Imposto de Renda, com isenções e descontos para as faixas de mais baixa renda. Tudo somado, a renda real disponível para as famílias deve crescerá 4,5% neste ano, um resultado próximo à expansão observada em 2025, mostra estudo da XP assinado pelos economistas Rodolfo Margato e Tiago Sbardelotto.
Os impulsos de renda sustentam o cenário-base de aceleração do consumo e do PIB em 2026, dizem os autores, que revelam por conta disso um viés de alta para a projeção de crescimento do PIB em 2026 – atualmente em 1,7%.
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A análise começa com uma leitura do atual estágio do mercado de trabalho. Os economistas reconhecem que a população ocupada perdeu fôlego no segundo semestre de 2025, refletindo a desaceleração da atividade econômica. Mas alertam que, ainda assim, o indicador avançou 1,9% no ano, passando de cerca de 100,0 milhões para 102,2 milhões na média anual.
Eles destacam que a expansão do emprego formal continua se destacando, especialmente nas atividades de serviços. Ao mesmo tempo, citam que a taxa de participação da força de trabalho recuou de 62,4% para 61,9% em termos dessazonalizados. “A escassez de mão de obra tem afetado praticamente todos os setores e regiões. Como resultado, a taxa de desemprego caiu para níveis abaixo de 5,5% no fim do ano passado, atingindo um piso histórico”, destacam.
Para Margato e Sbardelotto, esse cenário de forte aperto no mercado de trabalho não deve se alterar no curto prazo. A projeção é que a taxa de desemprego ficará em 5,7% ao final de 2026 e em 6,2% ao final de 2027, ambos abaixo da NAIRU – taxa neutra, que não interfere na inflação. “Estimamos que a taxa de equilíbrio se situe entre 7,0% e 7,5%, embora reconheçamos o elevado grau de incerteza inerente a esse tipo de estimativa”, dizem.
Para a renda real do trabalho, projeção é de continuidade da trajetória de alta. A explicação está na combinação de demanda resiliente e restrições pelo lado da oferta. A regra de reajuste do salário mínimo em termos reais reforça ainda mais essa dinâmica, dizem os autores.
“Projetamos que a renda média real do trabalho cresça 2,5% neste ano, alcançando cerca de R$ 3.800 por mês. Como consequência, a massa salarial real agregada deve avançar 3,8% em 2026, após um crescimento expressivo de 5,6% em 2025. Nossa projeção anterior era de 3,4%.”
Além da renda do trabalho, contribuem para a estimativa de crescimento da renda das famílias fatores como a reforma do Imposto de Renda da Pessoa Física (IRPF). “As transferências fiscais e a reforma do IRPF devem contribuir para o consumo. Estimamos que cerca de 0,8 p.p. do crescimento da renda real disponível às famílias este ano decorrerá dessas medidas — menos do que em anos anteriores, mas ainda assim uma contribuição relevante para a atividade econômica.”
E as transferências fiscais também devem contribuir de forma significativa, dizem os autores, que dão destaque para os benefícios previdenciários e os pagamentos de BPC/LOAS. Enquanto isso, o ritmo de diminuição da fila de benefícios segue como uma importante fonte de incerteza.
Sobre o IR, Margato e Sbardelotto dizem que a reforma deve elevar a arrecadação em R$ 34,1 bilhões em 2026, dos quais R$ 25,2 bilhões correspondem à tributação de dividendos distribuídos a pessoas físicas. Os R$ 8,9 bilhões restantes referem-se a recursos remetidos ao exterior e não afetam o indicador de renda disponível.
Entretanto, os autores sustentam que o impacto da reforma não será neutro do ponto de vista da atividade e da inflação. O motivo é que os efeitos líquidos sobre o consumo das famílias (e, por consequência, sobre o PIB) dependem das diferenças entre os grupos afetados pelas mudanças no IRPF. “A propensão marginal a consumir de indivíduos de baixa e média renda — beneficiados pela isenção e pelos descontos tributários — é significativamente mais elevada do que a dos indivíduos de alta renda, que serão impactados pela tributação de dividendos e pela introdução da alíquota mínima efetiva”, destacam.
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Outro elemento central do cenário traçado para a renda das famílias é o cronograma de pagamentos de precatórios e requisições de pequeno valor (RPVs). Ele citam que a relevância desses desembolsos para a atividade econômica tem variado ao longo do tempo.
Em 2024, por exemplo, os pagamentos totais (de R$ 39,2 bilhões) concentraram-se em fevereiro. Em conjunto com desembolsos realizados no fim do ano anterior, eles tiveram impacto relevante sobre a atividade corrente — em especial no primeiro trimestre de 2024.
Já em 2025, os pagamentos ocorreram em julho e agosto (totalizando R$ 59,0 bilhões), mas seus efeitos sobre a atividade no terceiro e no quarto trimestres ficaram aquém do esperado.
Para 2026 e 2027, os autores estimam que os pagamentos serão antecipados para fevereiro, com impacto sobre a atividade econômica distribuído entre o primeiro e o segundo trimestres. Para fins analíticos, os economistas incluíram o valor integral das RPVs e dos precatórios relacionados a benefícios previdenciários e assistenciais e uma pequena parcela (de natureza alimentícia) das despesas com pessoal, custeio e investimento.
“Projetamos desembolsos totais de R$ 67,7 bilhões em 2026 e de R$ 86,5 bilhões em 2027 — equivalentes a 1,2% e 1,5% da renda disponível total das famílias, respectivamente.”
Já as transferências fiscais devem continuar sustentando o consumo, ainda que em um ritmo mais moderado, diz o estudo. “Os benefícios previdenciários e assistenciais (BPC/LOAS) devem crescer 13,4% e 4,5% em 2026, respectivamente, impulsionados pela elevação do salário-mínimo (2,6% em termos reais) combinada com a redução do estoque de pedidos pendentes, que atingiu um recorde histórico de 3 milhões no fim de 2025.”
Os autores veem riscos altistas relevantes para essas despesas. Uma eliminação completa do estoque de pedidos pendentes já em 2026, por exemplo, implicaria um gasto adicional de R$ 13,0 bilhões em relação ao cenário-base.
A projeção é que as demais transferências devem ter efeitos limitados. “O programa Bolsa Família reduziu o número de famílias beneficiárias de cerca de 22 milhões em 2023 para menos de 19 milhões em 2025, enquanto o valor do benefício ficou inalterado. Em nosso cenário-base, assumimos que o número de famílias se estabilizará em 19 milhões e que o valor do benefício não será reajustado em 2026, em função das restrições impostas pela legislação eleitoral. Para 2027, incorporamos um reajuste de 5%.”
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