A resposta do Federal Reserve à pressão e até às ameaças judiciais contra sua diretoria foram respondidas nesta quarta-feira (28) de maneira técnica. Após anunciar a manutenção dos juros – posição contrária aos desejos de Donald Trump — após uma sequência de três cortes seguidos, o comitê reconheceu alguns avanços, mas reforçou o tom de cautela e a estratégia de dependência dos dados. Com isso, deixou economistas e analistas ainda divididos sobre quando a flexibilização pode ser retomada.
Em seu comentário, André Valério, economista sênior do Inter, destacou que o FOMC reconheceu que o mercado de trabalho perdeu dinamismo na geração de emprego, ao mesmo tempo em que a taxa de desemprego estabilizou e a inflação continuou moderadamente elevada. “Com os dados econômicos não apontando uma direção clara, o Comitê optou por não fazer nada, até ter maior clareza”, explicou o economista.
Ele lembrou ainda que — mais uma vez, não houve consenso entre os membros votantes do Comitê: votaram por corte de 0,25 pontos base os diretores Steve Miran, que era membro do governo Trump, e Chris Waller, um dos cotados para assumir a vaga do chairman Jerome Powell. “Especulava-se que ele pudesse divergir nessa reunião justamente como uma sinalização ao governo Trump”, escreveu Valério.
Em sua opinião, mantida a tendência atual do mercado de trabalho, o Comitê pode voltar a cortar os juros na reunião de março — Isso tendo em vista o baixo dinamismo na geração de emprego e uma estabilização da taxa de desemprego em patamar elevado. “Para o restante do ano, a dinâmica da política monetária americana será altamente dependente em que será escolhido para substituir Powell”, ponderou.
Maria Irene Jordão, estrategista global da XP, viu uma diferença de tom na comunicação: na coletiva, Powell foi mais neutro, enquanto no comunicado o FOMC foi levemente hawkish.
“Powell mencionou que ainda há alguma tensão entre emprego e inflação, mas menor que em últimas reuniões, e a menção à atividade econômica sólida no comunicado reforça esta avaliação. Já de um lado mais dovish, Powell voltou a mencionar que acredita que uma parcela relevante da inflação de bens possa ser atribuída às tarifas (cerca de metade), impacto este que deve se dissipar ao longo do ano, e adicionou que há desinflação em curso entre os principais itens da inflação de serviços.”
Sobre a coletiva de Powell a jornalistas, Andressa Durão, economista do ASA, observa a visão do chairman de que alguns dados do mercado de trabalho apontam para uma estabilização, enquanto a inflação veio mais ou menos como esperado.
“Logo, o cenário atual é mais agressivo. Segundo ele [Powell], a perspectiva para a atividade econômica melhorou claramente desde a última reunião, e isso tende a se refletir na demanda por trabalho e para o emprego ao longo do tempo. Também disse que, se a oferta e a demanda por trabalho estão equilibradas, pode-se dizer que a economia está em ‘pleno emprego’. O tom do Fed reforça o nosso cenário de uma taxa de juros parada ao longo do ano”, previu.
Sobre o comunicado do FOMC, Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research, disse que o tom foi marcado pela cautela, pelo reconhecimento maior da resiliência da atividade econômica e pela elevada incerteza do cenário prospectivo. “O FOMC ressaltou explicitamente que a incerteza em torno do ambiente econômico permanece elevada, reforçando a necessidade de uma condução prudente da política monetária”, destaca..
Ele citou uma mudança relevante no texto, que foi a retirada dos trechos do comunicado anterior que indicavam aumento dos riscos negativos para o mercado de trabalho (“downside risks to employment rose in recent months”) e uma alteração no balanço de riscos da autoridade monetária (“in light of the shift in the balance of risks”). “A exclusão dessas referências sugere uma avaliação mais equilibrada dos riscos em torno do duplo mandato do Fed.”
“Em nosso cenário-base, o Fed deve manter o juro no atual patamar na reunião de março, adotando uma postura conservadora, fim de observar a evolução dos próximos dados econômicos. Para 2026, projetamos que a taxa básica de juros encerre o ano em torno de 3,0% a.a., o que implica a realização de dois cortes ao longo do ano, condicionados à continuidade da desaceleração inflacionária e a uma moderação mais clara do mercado de trabalho”, estimou Sung.
Por sua vez, Marianna Costa, economista-chefe da Mirae Asset Brasil, frisou que houve pouca sinalização sobre os próximos passos, com os mercados esperando que o Fed aguarde pelo menos até junho antes de voltar a ajustar sua taxa básica de juros.
“Após a decisão, segundo a curva futura de juros, a probabilidade de manutenção do Fed funds na próxima reunião, que acontece em março, subiu de 83% para 88%. Já a probabilidade de manutenção dos juros na reunião de junho, subiu marginalmente de 35% para 39%”, comparou.
Para Gustavo Cruz, estrategista-chefe da RB Investimentos, o grande fator de mudança ao longo do ano deve vir do lado político. “A nomeação do próximo presidente do Federal Reserve tende a alterar a dinâmica da condução da política monetária, concentrando as expectativas principalmente no segundo semestre. A partir daí, o novo dirigente pode adotar uma postura mais firme em favor de cortes de juros, em linha com os interesses do presidente Donald Trump”, alertou.
A análise de Nicolas Gass, head de alocação de investimentos e sócio da GT Capital, é que decisão de manter os juros vem muito por uma cautela por conta de uma análise de dados. Ele lembrou que houve shutdown nos EUA há dois meses atrás e existe uma dúvida se pode surgir uma “surpresa”, que acabe afetando a qualidade dos dados.
“Acredito que os próximos meses de fato vão ser de muita cautela. Acredito que um corte certo deve vir nos segundo semestre. Devemos ter um corte total no ano de 0,75%, dividido em duas reuniões, um corte de 0,25% e outro de 0,50%”, previu.
Ou seja, Gass acredita que o primeiro semestre será dominado por uma análise criteriosa dos dados econômicos. “A grande questão será entender se a economia americana realmente demanda um novo estímulo monetário ou se ainda faz sentido manter a taxa de juros nos níveis atuais. O mercado segue bastante dividido em relação a esse diagnóstico, e as próximas semanas serão decisivas”, comentou.
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