A atual desvalorização do dólar no cenário global é, para José Alfaix, economista da Rio Bravo, mais um sintoma direto dos danos institucionais causados pela gestão de Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, do que um movimento técnico de política cambial.
Essa depreciação do câmbio ocorre em um cenário onde o presidente dos EUA já afirmou não ver problemas na queda da moeda, pontuando que “o dólar está indo muito bem“, e que não deve haver movimentos para seu fortalecimento.
O que parece ser uma estratégia para favorecer as exportações e a indústria americanas — pilares da campanha republicana — pode ser, na verdade, uma consequência indesejada da volatilidade política, avalia Alfaix.
Leia também: Dólar fraco é política desenhada desde a campanha eleitoral nos EUA. Dará certo?
Embora a retórica de um dólar mais fraco remeta a políticas desenhadas desde a campanha eleitoral para favorecer a indústria dos EUA, a Rio Bravo alerta que comparações com intervenções históricas são equivocadas.
Segundo o economista, é comum que o mercado relembre o Acordo de Plaza de 1985, mas o cenário atual é diferente. Naquela época, o mercado cambial era menos líquido e os governos tinham maior controle político sobre os fluxos.
Hoje, tentar depreciar a moeda mais líquida do mundo “não é uma tarefa trivial”, diz Alfaix, já que o sistema financeiro está descentralizado e é capaz de neutralizar intervenções com mais facilidade.
Para ele, portanto, o verdadeiro motor da queda não seria uma coordenação internacional ou um mecanismo técnico, mas a incerteza gerada pelo presidente americano.
Um ponto crucial na análise da gestora é a distinção entre a aversão à moeda e a aversão aos ativos reais. Não há, segundo Alfaix, uma fuga generalizada dos Estados Unidos.
“Não houve fuga concentrada dos títulos de dívida, ou dos principais índices de ações”, pontua o economista. Os mercados de ações dos EUA continuam performando bem, o que indica que os investidores ainda querem e gostam dos ativos americanos, mas rejeitam a volatilidade cambial atrelada à figura do presidente.
Leia também: Temor sobre o dólar se intensifica com ‘America First’ de Trump – mesmo após alívio
A intencionalidade por trás dessa desvalorização permanece questionável, segundo Alfaix. Ainda que Trump argumente que um dólar forte prejudique as exportações — um ponto-chave de sua promessa de campanha para o setor industrial —, os custos de credibilidade parecem superar os benefícios.
Ele afirma que as constantes ameaças comerciais e tensões geopolíticas criaram um ambiente onde a gestão Trump potencializa a flutuação da moeda. E, como o próprio presidente afirmou recentemente que não vê problemas na cotação atual, a Rio Bravo projeta que não devemos esperar “mudanças abruptas visando o fortalecimento da moeda americana”.
A combinação de um dólar estruturalmente mais fraco e a busca contínua por proteção por parte dos investidores globais pode ter um beneficiário lateral.
Enquanto a gestão Trump mantiver o discurso que alimenta essa volatilidade , o cenário se desenha como uma “boa notícia para parte relevante dos mercados emergentes”, diz Alfaix.
Isso porque o fluxo de capital tende a buscar destinos onde a relação risco-retorno seja menos afetada por “ameaças comerciais e geopolíticas” constantes vindas de Washington.
O que pode impedir um fluxo maior de capital estrangeiro para países como o Brasil é a fragmentação de investimentos em ouro e outros ativos de câmbio.
Para o economista, o risco do investidor em 2026 é tratar essa volatilidade apenas como “ruído tático” e ignorar que ela pode ser um ponto de inflexão estrutural na economia global.
The post Dólar fraco é ‘efeito Trump’ e abre oportunidade para emergentes, diz Rio Bravo appeared first on InfoMoney.