Cinco planos precederam o Plano Real, sem sucesso. Mas há 35 anos um deles entrou para a história se tornando um dos maiores traumas financeiros para toda a população brasileira. Não existe um só cidadão neste país que viveu naquela época e que não se lembre daquele fatídico dia 16 de março de 1990, quando o governo ordenou um feriado bancário nacional e estabeleceu o Plano Collor I, que entre outras coisas confiscava a poupança dos brasileiros.
O conjunto de medidas econômicas visava combater a hiperinflação no Brasil e incluía o congelamento de saldos de contas correntes e cadernetas de poupança, substituição de moeda, do cruzado novo pelo cruzeiro, redução de despesas do governo, privatização de empresas estatais, abertura econômica e reforma administrativa.
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O plano vinha depois de outras três tentativas frustradas de controlar a hiperinflação com os Plano Cruzado (1 e 2), Plano Bresser, Plano Verão. Mas dessa vez ele trazia a inovação de tirar o dinheiro de circulação em cima de uma teoria de provocar uma recessão para não só diminuir a inflação como também quebrar a inércia inflacionária, como explica o professor da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV), Leonardo Weller.
“Naquela época, o Banco Central não tinha as ferramentas de controle de política monetária que existem hoje e a ideia era reduzir a moeda em circulação, confiscando o dinheiro em poder das pessoas”, afirma.
Fila de pessoas recorrem à Justiça Federal para desbloquear seus Cruzados Novos retidos nas cadernetas de poupança – 16/03/1991 (Foto: Vidal Cavalcante/Estadão Conteúdo)
Entretanto, o que era uma tentativa de controlar a inflação, que chegava a quase 90% ao mês, se transformou em um tiro no pé e mais uma vez não funcionou. Depois dele ainda vieram os Planos Collor 2 e o Plano Marcílio. Tudo sem muito resultado, fazendo a popularidade de Fernando Collor despencar.
“A situação era complicada porque, quando Collor assumiu, [José] Sarney entregou uma inflação no auge. Além disso, a medida no final causou um trauma, mas não afetou efetivamente a maior parte da população, que naquela época nem tinha conta em banco. Pegou mesmo foi a classe média”, afirma.
O presidente Fernando Collor de Mello durante cerimônia em Brasília – 28/05/1990. (Foto: Ricardo Chaves/Estadão Conteúdo)
O período acabou se tornando um dos mais recessivos da República e o governo foi obrigado a voltar atrás porque só estava sufocando a economia. Porém, o impacto na mentalidade da população foi tão grande que até hoje ainda é presente o medo do confisco na cabeça de toda aquela geração. Não é raro que governantes ainda precisem frisar que não fariam mais nenhum tipo de confisco.
“Foi um aprendizado institucional. Tanto que o Plano Real, quando foi estabelecido, foi feito de forma clara para evitar traumas. E nunca mais se falou em congelamento ou outras medidas dos planos anteriores”, afirma o professor de economia.
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Apesar do susto ter sido grande, Weller acredita que há pontos positivos no Plano Collor. Dentro do programa havia previsão de ajuste fiscal e privatizações, que ajudaram o governo a conseguir recursos, e a redução de tarifas de importação, abrindo o mercado para os produtos de fora. “Isso forçou a indústria a ter de melhorar a produtividade para sobreviver e reduziu um pouco a inflação com os produtos importados. Essa liberalização comercial ajudou na evolução”, afirma, admitindo que teve um ônus porque algumas indústrias não conseguiram competir.
Mas, segundo o professor, algumas dessas coisas ajudaram a abrir o caminho para o Plano Real. “Desde o governo militar, o Brasil vinha de uma série de formas de indexação na economia e tudo acompanhava a inflação, mantendo a tendência de alta. E o Plano Collor quebrou algumas dessas coisas”, explica.
No Plano Real, foram criadas duas moedas, uma era a URV, que era indexada, e o Real. Mas não havia mais o congelamento de preços. “Era uma tática mais sofisticada e as pessoas assimilaram muito rápido, depois de tanta coisa maluca que foi feita. E os importados ajudavam a não elevar a inflação”, afirma.
Os juros ainda eram muito altos, o que atraiu a entrada de capital, com bancos pegando recursos no exterior mais barato e emprestando aqui. O real ficou forte e as importações ficaram mais baratas. “E isso beneficiou o Plano Real, porque, se o país ainda fosse mais autárquico, não teria sido possível”, acrescenta.
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