As reservas conhecidas de terras-raras no Brasil têm valor estimado equivalente a 186% do Produto Interno Bruto ( PIB) do país — quase duas vezes o tamanho da economia brasileira. O cálculo é do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), feito com base em preços internacionais e valores de PIB de 2024.
O dado coloca o Brasil em posição de destaque na nova disputa global por minerais críticos, insumos estratégicos para baterias, turbinas eólicas, semicondutores, equipamentos eletrônicos e tecnologias ligadas à transição energética e à inteligência artificial.
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No mesmo levantamento, o país também aparece com reservas de níquel avaliadas em 12% do PIB. Isso reforça a posição do Brasil entre os principais detentores regionais de ativos minerais de alto valor econômico.
Terras-raras são um grupo de 17 elementos químicos usados na fabricação de ímãs permanentes, baterias, turbinas eólicas, semicondutores, catalisadores, equipamentos eletrônicos e tecnologias militares. Apesar do nome, não são necessariamente escassas na natureza, mas sua extração e processamento são complexos, caros e ambientalmente sensíveis.
Na comparação regional, enquanto o Brasil se destaca em terras-raras, o Chile aparece com reservas de cobre equivalentes a 526% do PIB, o Peru com 310% e o México com 26%. Isso evidencia como a América Latina concentra parte relevante da oferta global de minerais considerados estratégicos para a reorganização industrial em curso.
O relatório observa que o subsolo dos Andes e do Escudo Brasileiro reúne reservas abundantes de cobre, lítio, níquel, grafite e terras raras, justamente os insumos mais demandados pelas novas cadeias tecnológicas globais.
No caso brasileiro, porém, o BID chama atenção para um ponto central: a riqueza geológica, por si só, não garante desenvolvimento econômico. O próprio relatório resume que a vantagem comparativa da América Latina e do Caribe é grande, mas transformá-la em riqueza duradoura depende de fatores institucionais e estruturais, como infraestrutura, acesso a energia e água, clareza regulatória e eficiência no licenciamento.
A avaliação também destaca que minerais críticos diferem das commodities tradicionais porque sua importância decorre simultaneamente do valor econômico e do risco de abastecimento global. São insumos cuja oferta permanece concentrada em poucos países, sobretudo no refino.
A China domina parte importante desse mercado, especialmente em terras raras, o que amplia o peso geopolítico desses materiais e estimula países como Estados Unidos e membros da União Europeia a buscar novos fornecedores e novas cadeias de suprimento.
O estudo observa que essa pressão internacional tende a crescer. A demanda global por lítio pode avançar entre 470% e 800% até 2050, dependendo do ritmo de implementação das políticas climáticas globais. Veículos elétricos exigem muito mais minerais por unidade produzida do que automóveis a combustão, enquanto parques eólicos e solares demandam quantidades substancialmente superiores de metais em comparação às fontes fósseis tradicionais.
Além da transição energética, a digitalização acelerada e o avanço da inteligência artificial também ampliaram a procura por metais industriais. O relatório mostra que, entre 2024 e 2025, metais e minerais mantiveram trajetória de valorização, ao contrário de parte das commodities energéticas, criando uma janela de oportunidade para economias exportadoras com grande base mineral.
Ao mesmo tempo, o BID adverte para a volatilidade típica desse mercado. Os preços do lítio dispararam em 2017 e novamente em 2021 e 2022 antes de recuarem com a entrada de nova produção. No caso das terras-raras, episódios recentes de restrições à exportação por parte da China também provocaram saltos nos preços internacionais, evidenciando a sensibilidade geopolítica desse mercado.
A leitura do banco é que o Brasil chega a esse novo ciclo com vantagem comparativa importante, mas ainda sem uma estratégia plenamente consolidada para transformar reservas minerais em política industrial. A recomendação central é que países da região fortaleçam governança ambiental, marcos fiscais e integração produtiva regional para evitar repetir o padrão histórico de exportação de matéria-prima com baixo valor agregado.
Em meio ao avanço global da disputa por minerais críticos e estratégicos, o Brasil vem ampliando negociações bilaterais para estruturar parcerias nessa área. O país já firmou entendimentos com Índia e Coreia do Sul voltados à cooperação em cadeias de fornecimento, processamento e desenvolvimento tecnológico desses insumos, considerados centrais para a transição energética e a indústria digital.
O tema também deve entrar na pauta do encontro entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump, previsto para ocorrer em breve. Os EUA buscam ampliar o acesso a minerais estratégicos fora da órbita de fornecedores concentrados, especialmente diante da dependência global em relação à China.
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