A decisão do governo do Paraguai de interromper as negociações referentes ao Anexo C do Tratado de Itaipu – após a revelação de que a Abin (Agência Brasileira de Inteligência) executou uma ação hacker contra autoridades do governo do país vizinho – é apenas mais um capítulo numa relação conturbada em torno da segunda maior hidrelétrica do mundo em potência instalada.
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Construído ainda durante os regimes militares que governaram Brasil e Paraguai, o empreendimento com 14 mil MW é responsável por 8,7% da energia consumida no Brasil e 86,4% do consumo do Paraguai.
As obras foram iniciadas em 1975, com recursos provenientes da abertura de uma linha de crédito da Eletrobras no valor de US$ 3,5 bilhões. O custo total foi orçado em US$ 10,3 bilhões.
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A obra envolveu negociações diplomáticas frequentes e acumulou problemas desde sua concepção até a operação plena, como interesses de fronteiras, dívidas bilionárias e desrespeito às comunidades indígenas locais. Veja um resumo abaixo:
O Brasil apresentou taxas médias de crescimento econômico que variaram de 7% a 10% ao ano entre 1955-1975, o que representou um aumento da demanda por eletricidade de mais de 500% no período. Alcançar maior segurança energética de longo prazo, portanto, se tornou uma política de Estado para vários governos. Já em 1950 começaram os estudos sobre o aproveitamento hidroelétrico do Rio Paraná, na região próxima às Sete Quedas, que resultaria anos depois na construção de Itaipu. Mas o processo teve idas e vindas, uma vez que uma obra binacional envolvendo o Paraguai não era consenso.
O governo militar brasileiro estudou a opção de construir uma barragem totalmente nacional que seria erguida ao norte de Guaíra, na porção montante das Sete Quedas. Esse projeto levou a uma forte crise com o Paraguai, que ficaria completamente excluído da obra pois a usina mais ao norte inviabilizaria a construção de outra na região das Sete Quedas, local onde sua construção seria necessariamente binacional. O governo paraguaio, do presidente Stroessner, passou a reivindicar uma área objeto de litígio, localizada entre as Sete Quedas e a parte norte da Serra de Maracajú. O Paraguai classificou a presença de militares brasileiros na área como uma invasão de seu território. Após um protesto diplomático, os tensionamentos ameaçaram escalar para uma confrontação militar, mas essa tensão ajudou a viabilizar um acordo diplomático. Em 1966, foi assinada a Ata do Iguaçu, que previa que qualquer empreendimento hidrelétrico seria binacional e não poderia resultar na alteração da fronteira.
Após a assinatura do tratado para a construção da hidrelétrica, em 1973, a primeira grande dificuldade surgiu no julgamento da concorrência entre cinco empreiteiras para a construção do vertedouro. Para o lado brasileiro, a proposta de menor custo era da Andrade Gutierrez, mas para os paraguaios deveria ser contratada a Camargo Correia. Na conciliação, foi formado um consórcio dos cinco postulantes, denominado União de Construtores (Unicon). Em outubro de 1975, a Itaipu Binacional assinou contrato para a realização do primeiro estágio das obras civis com a Unicon e o Consórcio de Empresas Construtoras Paraguaias (Conempa), constituído por seis empreiteiras.
A diferença de frequência entre os sistemas elétricos brasileiro (60 Hz) e paraguaio (50Hz) gerou a segunda dificuldade. O Brasil chegou a propor a completa conversão do sistema elétrico paraguaio, mas acabou concordando em dividir a usina em duas partes de igual potência, com nove geradores de 60Hz e outros nove de 50Hz. A parcela não utilizada pelo Paraguai seria adquirida pelo Brasil e transportada por intermédio de um sistema de transmissão de corrente contínua de seiscentos quilovolts (kV) até estações conversoras nas proximidades de São Paulo.
Um marco importante no campo diplomático foi a assinatura do acordo tripartite pelo Brasil, Paraguai e Argentina, em outubro de 1979. Isso permitiu o aproveitamento dos recursos hidráulicos no trecho do rio Paraná desde as Sete Quedas até a foz do Rio da Prata. O acordo estabeleceu os níveis do rio e as variações permitidas para os diferentes empreendimentos hidrelétricos na bacia comum aos três países.
A usina de Itaipu foi inaugurada em outubro de 1984 pelos presidentes João Batista Figueiredo e Alfredo Stroessner, dispondo de duas unidades geradoras de 50Hz. Em dezembro de 1986, a usina começou a produzir energia em 60Hz, destinada integralmente ao mercado brasileiro, tendo início o suprimento pelo sistema de transmissão de 750kV, pioneiro no hemisfério sul. Em 1988, a usina completou a instalação das máquinas de 50Hz, entrando em operação a segunda linha de transmissão de corrente contínua. Em 1989, Itaipu tornou-se a maior hidrelétrica do mundo tanto em potência instalada como em capacidade de geração. Hoje, ela ainda ocupa a segunda posição global, atrás da usina chinesa de Três Gargantas.
O preço da energia de Itaipu foi determinado pelo método chamado “tarifação pelo passivo”, para cobrir os custos operacionais da usina e dos custos financeiros, resultantes dos juros e da amortização da dívida desde sua construção. Ou seja, o tratado garantiu que a energia elétrica gerada pela usina seria adquirida compulsoriamente por ambos os países a um preço, definido pela gestão da própria usina, que cobrisse todos os custos do empreendimento. Em virtude desse arranjo, consumidores brasileiros atendidos pelas distribuidoras localizadas nos submercados Sul e Sudeste/Centro-Oeste compram, obrigatoriamente, energia elétrica gerada pela usina. Mas a escalada dos juros internacionais no auge da construção da usina e a geração insuficiente de caixa acarretaram o crescimento exponencial da dívida. A empresa foi obrigada a recorrer a novas captações para rolagem da dívida e pagamento de encargos financeiros.
No início da década de 1990, Itaipu enfrentou sérias dificuldades para honrar seus compromissos financeiros com a Eletrobras, sua principal credora. Naquele momento, as concessionárias estaduais brasileiras vinham atrasando sistematicamente o pagamento da energia adquirida de Itaipu e das empresas supridoras federais integrantes do grupo Eletrobras, acumulando uma dívida da ordem de US$ 4 bilhões. Essa crise de tarifas defasadas e atrasos de pagamento marcou o setor de energia elétrica nacional durante o governo Fernando Collor de Melo (1990-1992).
Só a partir de 1993 foi possível renegociar parte da dívida vencida da binacional e reduzir sensivelmente o nível de inadimplência das empresas de energia elétrica brasileiras, isso após legislação aprovada no governo de Itamar Franco. Em abril de 1997, a empresa concluiu a repactuação dos compromissos com a Eletrobras, que somavam US$ 16 bilhões, de um total de US$ 19,8 bilhões de débitos. A dívida com a Eletrobras foi dolarizada e refinanciada com juros de 7,5% ao ano. A tarifa de energia, congelada desde 1991, teve um reajuste de 7%.
O tratado também prevê que seu Anexo C, que trata das bases financeiras e de prestação dos serviços de eletricidade de Itaipu, seria revisto após a quitação do financiamento contraído para construir a usina. Mas essa rediscussão tem se arrastado nos últimos dois anos. Uma questão-chave é que, embora o Paraguai tenha assumido sua parte nos custos de construção da barragem, a falta de infraestrutura hidrelétrica do país à época fez com que ele concordasse em ceder ao Brasil qualquer energia não utilizada em sua cota de 50% da produção da usina. Agora, o país parceiro busca aumentar a tarifa nesse novo acordo, algo que contraria os interesses do governo brasileiro. A tarifa de Itaipu está atualmente fixada em US$ 19,28 kW/mês pelo menos até 2026.
Desde 1985, a Itaipu Binacional paga royalties pelo aproveitamento dos recursos hídricos do Rio Paraná, previstos no Anexo C do Tratado de Itaipu Binacional, uma compensação financeira pelo alagamento de uma área relativa a 6.874,47 Km2 . Segundo dados públicos, até 2018 pagaram cerca de US$ 11 bilhões em royalties ao Brasil e ao Paraguai. A distribuição dos royalties é feita de acordo com a legislação de cada país. No Brasil, é proporcional à área alagada de 16 municípios, e esses valores são repassados mensalmente pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). Desde 2018, a distribuição é feita da seguinte forma: 65% vai para os Municípios, 25% para os Estados e 10% para órgãos federais.
A construção da usina hidrelétrica impactou de forma irreversível o modo de vida dos índios Avá-Guarani, já que territórios sagrados da etnia nas comunidades Ocoy-Jacutinga e Guasu-Guavirá foram total ou parcialmente alagados. O Ministério Público e a Procuradoria Geral da República reconheceram que os alagamentos decorrentes da construção da usina deixaram áreas submersas e as tornaram definitivamente inacessíveis, removendo os indígenas de espaços que tradicionalmente ocupavam. Foi firmado um acordo com a empresa para a aquisição de 3 mil hectares de terras rurais no oeste do Paraná como forma de reparação, num valor estimado em R$ 240 milhões.
Nesta semana, o portal UOL revelou em reportagem que a Agência Brasileira de Inteligência (ABIN) realizou entre junho de 2022 e março de 2023, espionagem de autoridades paraguaias durante as negociações referentes ao Anexo C. O governo paraguaio interrompeu unilateralmente as conversas e chamou seu embaixador no Brasil, Juan Ángel Delgadillo, para consultas. Segundo o titular do Ministério da Indústria e Comércio (MIC), Javier Giménez, o novo acordo já havia avançado entre 70 e 80% em relação aos pontos que estavam em discussão antes dessa crise.
(Fontes: FGV, Senado Federal, FoMerco, UOL, Ultimas Noticias e Dialogue Earth)
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