Depois da maré alta e do encerramento da temporada turística, a cena costuma se repetir: garrafas quebradas na areia, cacos espalhados pelas ruas e entulho de todo tipo. Na Ilha de Itamaracá, no litoral de Pernambuco, duas mulheres escolheram não ignorar esse cenário. Optaram por recolher, juntar, lavar e… construir.
Durante a pandemia da Covid-19, Edna Dantas e sua filha, Maria Gabrielly, passaram a coletar garrafas de vidro descartadas nas praias e vias da ilha. A ideia soava improvável: transformar aquele lixo em matéria-prima para erguer uma casa.
No final, o número chama atenção: cerca de 8 mil garrafas recolhidas manualmente e usadas não como simples descarte, mas como parte da estrutura do imóvel.
Casa de Sal/Reprodução Instagram
A proposta de levantar uma casa com garrafas não partiu de um arquiteto renomado nem de grandes investimentos. Surgiu, na prática, como um desafio pessoal.
Em meio ao isolamento social e à queda da renda, Edna lançou a frase que guiaria o projeto: vou construir uma casa com garrafas.
A rotina mudou a partir daí. Mãe e filha começaram a mapear pontos de descarte, praias mais impactadas pelo lixo do turismo e bares que jogavam fora o vidro sem qualquer tipo de reciclagem ou reaproveitamento.
Garrafa por garrafa, o material foi separado, lavado e armazenado. Foram quase dois anos de trabalho, sem linha de produção, sem patrocínio e sem manual.
O resultado ganhou nome: Casa de Sal. Um batismo que remete ao ambiente costeiro e à ideia de resistência — afinal, o sal corrói, mas também preserva.
A construção tem sete cômodos, com paredes feitas de garrafas encaixadas e fixadas com argamassa, formando desenhos, pontos de entrada de luz natural e circulação de ar.
Além do vidro, a obra utiliza madeira reaproveitada, paletes e outros materiais descartados. Nada foi feito de forma improvisada: o projeto buscou garantir conforto térmico, ventilação cruzada e durabilidade.
Hoje, a Casa de Sal funciona como moradia e espaço de educação ambiental em Itamaracá. A cerca de 100 metros da praia, também recebe hóspedes interessados em uma vivência ecológica. Pelo Airbnb, duas noites na casa de garrafas de vidro custam R$ 430.
Casa de Sal/Reprodução Instagram
Mais do que idealizadoras da obra, Edna e Maria Gabrielly seguem atuando diariamente no território que ajudaram a transformar. Edna trabalha como educadora ambiental, promovendo oficinas, visitas guiadas e ações de conscientização sobre o descarte correto de materiais.
Maria Gabrielly, por sua vez, participa da gestão da Casa de Sal, organiza as hospedagens, recebe os visitantes e atua na mediação das atividades educativas.
A casa de garrafas de vidro não se limita à função de moradia: ela se estende à formação ambiental, ao turismo de base comunitária e à geração de renda local.