A primeira reunião do Copom em 2026 acontece sob um cenário de divisão no mercado e de grande expectativa sobre o início do ciclo de queda de juros. Em evento fechado a investidores institucionais, a XP Investimentos reuniu seu time macroeconômico e especialistas do Banco Daycoval e da Daycoval Asset para traçar o cenário provável para a Selic e os impactos sobre a economia e os ativos brasileiros.
O consenso entre os participantes é que os cortes não começam agora, mas estão próximos.
Tanto a XP quanto o Daycoval projetam manutenção da Selic em 15,0% na reunião desta semana, alinhados à maioria do mercado. A divergência aparece no ritmo de flexibilização a partir de março.
Apesar da melhora recente da inflação, os analistas destacam que a desaceleração da atividade tem sido apenas gradual; o mercado de trabalho segue resiliente, sem sinais claros de arrefecimento e a qualidade da inflação ainda preocupa: serviços voltaram a subir e parte do alívio recente tem caráter não recorrente.
Por isso, a expectativa é de que o comunicado do BC mantenha um tom duro, ainda reforçando o compromisso com o combate à inflação, mas já com sinais mais claros de espaço para cortes à frente. XP e Daycoval convergem na leitura de que o Copom deve suavizar a retórica fortemente contracionista e preparar o terreno para a flexibilização a partir de março.
No cenário-base das duas casas, o início do ciclo de afrouxamento monetário ocorre em março, mas com trajetórias diferentes.
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A XP Investimentos vê um um ciclo mais assertivo, cinco cortes consecutivos de 0,50 ponto percentual (p.p.), pausa no segundo semestre para reavaliação e Selic em 12,50% ao fim de 2026.
O Daycoval adota postura mais gradualista e cautelosa, com corte de 0,25 p.p. em março, novo corte de 0,25 p.p. em abril e só então aceleração para reduções de 0,50 p.p., A queda total é de 3 pontos percentuais ao longo do ciclo. O banco, porém, não descarta que o BC deixe o primeiro corte para abril, caso três fatores persistam: mercado de trabalho ainda aquecido; piora na composição da inflação e expectativas inflacionárias desancoradas.
Os convidados foram unânimes em apontar que boa parte da desinflação recente não é estrutural: a inflação de serviços voltou a ganhar força e o recuo da inflação cheia foi fortemente ajudado por fatores externos, como a desvalorização do dólar e a queda de preços importados.
Segundo o Daycoval, a chamada “inflação importada” respondeu por cerca de 0,9 ponto percentual da desaceleração no ano passado — efeito que tende a ser bem menor daqui para frente.
Além disso, a política monetária tem tido efeito limitado em setores não cíclicos, enquanto a massa salarial segue robusta, sustentando a demanda.
O Daycoval projeta inflação de 4,1% ao fim de 2026 e 3,5% em 2027, com forte dependência do comportamento do câmbio. Rodolfo Margato, economista da XP, avaliou que fluxos de capitais mais favoráveis ao Brasil podem ajudar o processo de desinflação, mas os especialistas do Daycoval ponderaram que o câmbio, sozinho, “não resolve o problema”.
Do lado dos investidores, o quadro é de mercado dividido para a Selic: uma minoria ainda aposta em corte de 0,25 p.p. já nesta reunião, enquanto a maioria, porém, enxerga o Copom esperando dados adicionais e iniciando o ciclo apenas em março.
Assim, no pano de fundo, a leitura de XP e Daycoval é semelhante: o BC deve manter a Selic parada agora. A sinalização é de que o próximo passo provavelmente será um corte, enquanto calibrar o ritmo da flexibilização de acordo com a combinação entre inflação, atividade e câmbio.
Enquanto isso, o mercado de juros futuros já embute uma trajetória de queda à frente, e os ativos de risco — em especial ações de setores mais sensíveis à Selic, como bancos, consumo e empresas alavancadas — seguem na expectativa de que a virada de ciclo esteja próxima, ainda que o BC prefira, por ora, reforçar seu discurso de cautela.
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